segunda-feira, 7 de julho de 2014

UM ABRAÇO E UMA BEBIDA


















UM ABRAÇO E UMA BEBIDA

(Da série: poemas psicológicos – para ler em voz baixa)

Sabe aqueles dias que você não quer beber
Que está no evento por obrigação ou por trabalho
E todo mundo te oferece um abraço e uma bebida

Em dias de solidão estrema
Por vontade própria
Porta fechada
Fone no ouvido
Uma musica triste

Sempre aparece uma visita
Um abraço, um café, uma conversa
Parentes, amigos, mãe, irmãos, sobrinhos

Quantas vezes ouvi do meu quarto
Perguntarem pro vizinho se eu estava em casa
Depois de baterem na porta algumas vezes em vão

Tem dias que o contato humano me amedronta
E pra mim não aparecer num compromisso é dois palito
Celular desligado, luzes apagadas
E depois, invento uma desculpa qualquer
“Saí numas correrias e esqueci o celular em casa”
“Puts!!! foi mal, tive que resolver uns B.O”
“O celular tava fora de área”, “estava no silencioso”

Viajar no fim de ano também é uma boa estratégia
Pra não precisar passar natal e ano novo com a galera
Essas datas comemorativas me deprimem

Um vegetariano no meio de toda aquela churrascada
Viro alvo de tudo que é conversa e piada
Um dia onde ser feliz é lei, é obrigação, e a tristeza: um pecado capital
Churrasco, cerveja e seres humanos fazem parte do Kit de felicidade
Quando os fogos de artifício explodem no ar, se inicia o orgasmo coletivo
As luzes coloridas competem com os flashes das máquinas fotográficas
Que eternizam aquele momento, para daqui algumas décadas
Sentadas no sofá, num dia de domingo,
Reverem as fotos e pensarem que um dia foram felizes

Em meus álbuns de fotografia, comecei a circular de caneta
Pessoas que já se foram, morreram, ou que não tenho mais contato
Nos últimos 15 anos foram tempos de muitas perdas doloridas
Talvez isso explique meu desapego

Gosto de estar no meio das multidões
É o melhor lugar para ser solitário
Sempre mudo o visual, para não virar personagem de gibi
E ser identificado muito fácil nos lugares
Na rua só ando rápido, para parecer que estou com muita pressa
Assim, só me cumprimentam de longe e não me param pra conversar.

Mas a minha estratégia nunca deu muito certo
Quanto mais fujo, mais amigos eu faço
Sempre aparece alguém pra puxar conversa
No ponto de ônibus, no bar, nos eventos

Um desses amigos me disse que sempre vamos precisar do outro
Para provar nossa própria existência
Como no filme Náufrago,
Quando o ator faz amizade com uma bola de volêi

Sempre fico muito confuso
E sem saber o que fazer depois do sexo
Naquele momento onde preciso estar só comigo mesmo
Mas existe a presença desconfortante da pessoa ao lado, pós gozo
Por muito tempo pratiquei o sexo individual
Para tentar fugir da dependência do próximo

Hoje decidi que não ia beber
Mas a montanha sempre vem a Maomé

E um abraço sempre me desarma.


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